GRITANDO HXC

Essa entrevista foi feita em um shopping center, ao lado do do catraca, local onde rolou o show tão esperado do Gritando HxCx. Fizemos essa com Lê, Renato e Ritchie numa ótima entrevista onde a gente se divertiu muito.

Por: Nelson Jr. e Geise Paula


Comece falando um pouco da historia da banda até os dias atuais.
Lê - Puta, data eu sou uma merda, cara. Discografia, dois cds, Gritando HC numero um, o segundo foi o Ande de skate e destrua, o terceiro esta pra sair ao vivo, já esta gravado, já esta pronto, masterizado, capa, encarte, pôster, só que por causa dessa droga do Sican agora, a gente teve um atraso do nosso cd, acho que daqui uns quarenta dias já vai ta na mão, que teve o show de gravação ontem. Agora sobre datas, isso é o senhor Ritchie - que entra na historia, porque eu sou uma merda de data.
Ritchie - O primeiro show foi em 96 e em setembro de 97 já saiu o nosso primeiro cd. E em agosto de 2000 já estava finalizado o segundo que é o Ande de skate e detrua.
E o cd que esta pra sair, como chama?
Ritchie - É um registro ao vivo, é um apanhado dos dois primeiros cds, né, e mais três musicas novas. O nome é Gritando ao vivo mesmo.
Lê - A gente não tem muita frescura, talvez saia algum nome, mas a gente nem sabe se vai colocar um nome no cd ou não. Eu tinha falado no ensaio para os meninos que era em homenagem e tal ou dá outro nome melhor, aí ninguém deu um nome. Só que eu não sei se esse nome vai sair também, mas é mais em homenagem ao Marcelo e ao publico que estava no show, a galera do Brasil inteiro que é a mensagem que a gente deixou no cd e é mais ou menos por aí. A gente não se preocupa muito com essas coisas de título.
Ritchie - Na verdade vai ser Gritando HC ao vivo mesmo. A gente nem ta preocupado com o nome do cd.

Quando vocês começaram a sete anos atrás, os shows eram mais punks! Ou não mudoumuita coisa? As bandas que vocês tocam, o publico que vai nos shows, como que é?
Lê - Mudou pra caralho.
Renato - Mudou quando a gente lançou o nosso primeiro cd. A gente lançou o primeiro cd, acho que foi lançamento no Retrô, acho que ali foi perceptível a mudança de publico. De demo pra já uma banda independente com um cd, entendeu.
Lê - Também é o seguinte, ha alguns anos atrás o publico do Gritando HC, devido até mesmo o primeiro cd do Gritando ser mais hardcore, mais punk, voltado mais para o punk dos anos oitenta, o nosso publico realmente era bem mais punk. Aí com o Ande de skate e destrua que já é bem melhor gravado, que tem uma qualidade superior e com letras, assim, não deixando de ser protesto, mais com uma outra qualidade, entendeu, já muda também, você já pega o publico punk e mais o publico que não é do hardcore e o publico do skate, do esporte, que vai só surf a bike, que vão nos shows da gentetambém. Então vai ficando mais abrangente, você vai crescendo, isso mostra uma evolução da banda.Renato - Nosso som é meio que uma trilha sonora de esportes radicais, tá ligado. então a galera se identifica bastante.Lê E os punk enxu parou de curtir nosso show, He que legal!! Aqueles caras radical, extremamente radical, "que tem que tocar pra mim e acabou", entendeu. E hoje tem uma galera com uma cabeça mais aberta, um pessoal mais comunicativo, aquela galera que consomem o merchandising dos produtos de todas as bandas, que fazem todas as bandas independentes sobreviverem. Então isso acho que é uma evolução da gente juntamente com o publico. Hoje se você pegar a faixa etária da galera que curte hardcore é um pouco diferente do que antes. Hoje o pessoal anda mais de bermuda, você percebe no visual da galera, é mais livre e menos preso ao um rótulo, a um título ou alguma coisa assim.
Renato - Quando a gente começou, tocar de bermuda, tênis e moicano era um sacrilégio, tá ligado. Os caras viam e "nossa, cadê o coturno, cadê a calça jeans"
Ritchie - Tem que ter um uniforme, o pessoal meio que se contradiz em tudo que fala, falando nesse negócio de liberdade, faça você mesmo, aí você ouve isso que o Renato acabou de falar, que a gente já ouviu várias vezes ao nosso respeito.

Como foi pra vocês a perda do Donald, por ele ser o vocalista, vocalista é meio que a alma da banda. Qual foi a reação de vocês e a do publico, notaram alguma mudança?
Lê - A mudança velho, tem respeito. Eu acho que o respeito por ele. Infelizmente aqui, e não sei se em outras partes do mundo, as pessoas só dão valor depois quer acontece alguma coisa trágica. Muita gente que conhecia ele e respeitava o respeito aumentou e pra que não conhecia o respeito foi maior ainda, entendeu, pelo trabalho dele. Inclusive as homenagens ou ele teve, até mesmo pela tv cultura e outras rádios, uma mídia grande que deu grande valor e uma importância. Eu não esperava, pensava que a gente ia ter um valor mas não que nem o cara do Rappa, em termos de imagem, de banda, mas a homenagem que foi feita pra ele no Brasil inteiro, principalmente eu recebi muitos e-mails fora do Brasil, foi uma coisa que me deixou espantada, o tanto que a gente era conhecido e tanto que admiravam o trabalho dele.

Em algum momento vocês pensaram em parar de tocar?
Lê - Na minha cabeça passou uma vez e foi tirada pelo Ritchie, porque eu convivi com Marcelo durante três anos e ele nunca falou em morte, alias ele falou duas vezes só, uma vez pra mim e outra pro Ritchie e foi nessa vez que o Ritchie falou assim "Lê, uma vez o Marcelo comentou comigo, quando a gente estava ensaiando, se um dia acontecer alguma coisa comigo não para com essa porra, vai em frente", foi uma coisa que me tirou um peso da consciência, saber que ele já tinha falado isso ha algum tempo atrás, porque ele não comentava, ele era uma pessoa muito pra cima, muito positiva, ele não falava dessa coisas. É difícil falar, eu nem gosto de falar muito sobre isso porque é complicado.

Vocês venderam mil cópias da primeira demos e lançaram dois cds independente. Gostaria de saber se pra vocês é mais difícil ser uma banda independente no Brasil ou é ainda a melhor opção?
Lê - Eu acho assim, a dificuldade de ser uma banda independente hoje é a falta de estrutura que há nos shows em geral, acho que a maior dificuldade de qualquer banda independente, porque a produção de um show independente é complicado, você precisa de estrutura, nem todo mundo tam estrutura, nem todo mundo tem uma casa de shows disponível, ingresso, é uma coisa mais underground, não é um som que esta rolando nas rádio, não é uma coisa mais pop. E distribuição de cd, acho que se todas as distribuidoras abrissem brecha, e começassem distribuir cds independente, pra gente fica bem mais fácil, porque gravadora mesmo, não há necessidade, gravadora é só pra colocar nas rádios e televisão. Rádio, já existem programas de bandas independentes sem você precisar estar numa gravadora e vários ainda e televisão, as vezes fecha, como aconteceu com o Musicaos depois volta de novo com outro nome, sempre rola. Mais é a distribuição mesmo que é mais complicado pra todo mundo , porque depende do giro e do rolê de cada banda em cada estado pra distribuir seu material.
Renato - Independente rola aquele lance do punk, de faça você mesmo, a gente mesmo que foi procurar estúdio, a gente mesmo gravou, produziu.
Gravou o primeiro cd ao vivo.
Renato - Cd ao vivo, aquele bagulho ao vivão, maior atitude. Mas é difícil você passar, você vender, mandar pra Bahia pelo correio, ter um contato lá. Mas a força do Gritando mesmo é ser independente. Acho que a força vem daí.
Gostaria de saber se já rolou uma proposta de algum outro selo independente grande, de maior distribuição?
Lê - Algumas pessoas já, mas a gente nunca quis pelo fato da gente achar que nunca precisou, porque realmente somos independente, independente mesmo, de andar com nossas próprias pernas. A gente não tem necessidade de estar entrando para um selo.

Existem alguns punks que boicotam o Gritando HxCx, inclusive alguns fazem até camiseta. O que vocês acham disso? Alguma vez já rolou algum conflito entre vocês e o publico nos shows?
Lê - A minha opinião resumida: Foda-se, não estou nem aí. Foda-se, foda-se e foda-se, pode boicotar, quanto mais boicota mais promove, hahaha. Foda-se.
Já teve algum conflito nos shows?
Lê - Nos shows do Gritando não, mas já rolou em outros shows em portas de show, mas foda-se de novo, não estou nem aí.
Comete sobre o novo cd ao vivo.
Lê - O ao vivo vai ter três musicas inéditas, eram pra ser quatro, mas nós falamos pra caralho no meio do show e ninguém falou nada de tempo. E tem um problema agora com o Sicam que pegou a gente, pegou o Dead Fish também que gravou cd ao vivo depois do nosso.
O que é o Sican?
Lê - É um bagulho que se chama Sican, é um órgão, que você tem que ter um registro de cada musica, não de letras, cada musica que sair tem que ter um código. O Gritando fez o show de lançamento ontem no Hangar110 sem o cd, mas já esta pronto, só falta o governo mandar o programa que você tem que instalar, é um monte de burocracia lá. Acho que chutando muito alto uns cinqüenta dias para o cd estar na mão, porque tem a parte do governo e a nossa parte é da prensagem, se não rolar atraso trinta dias.
De som acho que esta a mesma coisa, as musicas novas tem um pouco do primeiro, um pouco do segundo e trabalhando no instrumental para sair um pouco da mesmice, daquela rotatividade de sempre.
Ritchie - Aquela coisa previsível do punk, hardcore, não que vá descaracterizar, mas vai ter uma pegada nova, não vai descaracterizar o Gritando.

Lê -Imagine o primeiro cd, só que bem mais trabalhado, mais punkão, mais nervoso e atual ao mesmo tempo, porque você não pode ficar para atrás e outra é a evolução. Você é musico e começa a estudar a trabalhar mais. Fora as influências de bandas antigas, a gente tem influências de bandas que a gente conheceu agora, é normal evoluir. Mas o peso da banda vai continuar sempre.

No começo da banda, vocês tocavam com bandas mais punk, como Calibre12, DZK, e hoje quais são as bandas que tocam com Gritando HxCx e porque não rola mais aquele tipo de Show?
Lê -Não, não rola, pela distinção de publico, não que o publico do Gritando não curta DZK e Calibre12, mas os públicos mais radicais não vão nos shows do Gritando. E bandas pra gente tanto faz, nos tocamos muito com Blind Pigs que são brothers da gente, tocamos com muita banda conhecida.
Renato - Tem um lance mais de produção e estrutura também, né, tipo de marcar show.
Ritchie - É coisa mais organizada, né cara.
Renato - Umas bandas são mais organizadas que a outra, então as vezes não coincidem os shows, os locais dos shows. Agora de publico assim não, acho que até o publico mais radical cola no show do Gritando e pira no som.
Lê -Eu penso assim, se o cara esta pagando ele tem que ter um bom show, se esse radicais começarem a pensar assim. Agora tem cara que não quer pagar nada e quer ter um show mega-star.
Renato - E quer ter caipirinha na faixa ainda.
Lê - O cara não quer pagar nada, ainda mete o pau e ainda quer ter uma qualidade Rock'n'Rio. Se o cara esta pagando, seja um, dois, três, cinco reais ele tem que ter um bom show, pra ter um bom show gera um custo, tem que ter aparelhagem, tem que ter estrutura, isso é óbvio, acho que é até meio burrice uma pessoa querer ficar protestando.é questão das pessoas pararem de serem Maria vai com as outras e pensar, "pô, eu estou pagando, eu quero ver um bom show" por isso que acontece de as vezes gente não tocar, as vezes tem banda que pensam como a gente que procuram uma boa estrutura, as vezes não acontece, porque rock'n'roll é isso mesmo, as vezes o som é fudido num lugar tosco ou lugar é fudido e a aparelhagem é ruim.
Renato - É um lance de valorizar, porque os caras falam Riistetyt!, não sei quem!, eu curto muito essas banda, mas é o seguinte esses caras estão lá na Finlândia e a gente esta aqui do lado deles, os caras tem que valorizar.
Lê - Mais um recadinho pra quem curte o Riistetyt, blábláblá. Primeiro pra quem curte Chaos UK, quem trouxe o Chaos UK pro Brasil foi o Marcelo, Donald do GHC, quando ele foi com mais três malucos na maior roubada, vendeu a moto, conheceu o Jorge, que apresentou pro Fabio do Olho Seco (eu estou falando como se estivesse vendo esses punk lixo, que fica enchendo saco, "é fudido, sou punkão fudidão"), então foi o Donald do GHC que trouxe pra vocês ouvirem, porque vocês nem conheciam. Isso é uma realidade, ele mostrou pro Fabio do Olho Seco, ele abraço e falou "os caras são fudido". Inclusive são muito gente boa, eles fazem aquele som punkão, mas também exigem estrutura. Quem viu show do Chaos UK, eles não tocam com instrumento merda, só com instrumento fudido que custa assim, mil e quinhentos dólares, tá. E ainda mais o Riistetyt, a gente tem gravado, que o Marcelo tinha gravado, o Riistetyt fazem programa de televisão na mídia, seus babacas, tipo Silvio santos, os caras tocam lá, igualzinho. Então quer dizer os caras ficam pagando pau pras bandas de fora e não dá valor para o que tem dentro e quando uma banda dessa panelinha radical começa se destacar, esses mesmo s caras começam a meter o pau, como muito banda já foi falar pra mim "pô Lê, bem que vocês estavam certos né, a gente começa se destacar mais um pouquinho todo mundo metem o pau", eu falo, mano, foda-se esta vendo como você estava errado! O cara quer evoluir, você paga ensaio,
paga condução, paga gasolina e eu tenho obrigação de ficar tocando para um bando... A gente vive disso, pra mim playboy são eles que passam dia inteiro sem trabalhar e arrumando dinheiro não sei da onde, deve ser a mãe que paga, para ficar dia inteiro bebendo, nem eu que trabalho tenho dinheiro pra ficar dia inteiro bêbado, esses sim pra mim que são playboy, que abre a geladeira e deve ter de tudo pra comer lá, a gente tem que ralar, essa é a grande diferença e foda-se de novo, hahaha!

Conte como foi a primeira vez que vocês vieram em Sorocaba.
Lê - Estava maior friaca, aí veio o Mesquita do Filhos da desordem com uma Kombi zoada, cheia de aparelhagem, a aparelhagem foi de São Paulo, olha como era tosquera, o coitado veio e pá, coitado no bom sentido, na correria, botando a maior fé. Aí chegamos em Sorocaba, era umas onze horas ou meio dia, a praça já estava lotada, tinha uma galera, um lugar legal e tinha umas cinqüenta bandas pra tocar antes da gente, cada banda demorava uma hora, no mínimo. Pô até que enfim o GHC vai tocar, seis horas da tarde, o Ritchie fez "tóoom", aí chega a cavalaria da cidade inteira, "aí, mão na cabeça todo mundo!", eu nunca vi isso, tinha umas duzentas pessoas tomando geral, naqueles anos atrás é gente... porra velho! Mina pra dentro e do lado de fora quem tinha moicano de um lado, quem não tinha do outro, tirando que tiveram que tirar a roupa tirar sutiã. Depois a gente ficou sabendo que aquele lugar que a gente tocou era ponto de tráfico a muito tempo, parece que tinha trocado de prefeito e ele quis mostrar serviço, vamos por os desordeiros todos pra fora. Nós não tocamos. Depois disso a gente não voltou mais pra Sorocaba. Voltamos muito putos, sem nada, não fizemos show, não rolou nada. A gente não tem muito sorte no interior, parece que tem um a coisa que não engata.
Ritchie - A gente só veio uma vez aqui e a gente não tocou, eu pluguei o baixo, fiz "blum" e a policia apareceu, foi isso nunca tocamos, vamos tocar hoje se Deus quiser.

Deixe suas considerações finais.
Lê -Obrigado pelo menino que contatou o show da gente, Zarillo. Obrigado vocês, Grito Alternativo por ter dado a oportunidade da gente estar dando uma entrevista e esse desabafo do dia da geral e para o publico que vai vim no show obrigado. Espero voltar aqui várias vezes e por uma tábua naquele negocio negativo que rolou na primeira vez.
Ritchie - É questão de honra tocar aqui hoje, tem que rolar de qualquer jeito.hahaha!

http://www.geocities.com/pipeline/6956/

Obs.: Provavelmente o lugar em que o Gritando HxCx quase tocou em Sorocaba em 96, seja a praça Frei Baraúna em frente ao Fórum velho.

 
+ Parceiros