I SHOT CYRUS

Conheci o I Shot Cyrus no show do No Violence em Votorantim no ECRA bons tempos !!!
Banda formada por membros do Points of no Return, No Violence, Ratos de Porão e ex - membros New Speak, Self Conviction e Infect. Não presciso falar mais nada desse time de montros do hardcore nacional
com vocês I Shot Cyrus.

Por: Nelson Jr. e Geise Paula

1-Comece falando um pouco sobre a história da banda, discografia, primeiros shows, etc...
Pedro - A banda começou em 97. Foi assim: na época o Kalota tocava no Self Conviction e estava começando o Point of no Return e eu tocava no Newspeak. E o Newspeak que antes era old school, estava ficando cada vez mais caótico, com um som meio experimental. O Point era metal e o Self Conviction era moshcore. Então tanto eu como ele, estávamos sentindo falta de tocar um som mais básico, mais simples, mais agressivo, old school mesmo, hardcore tradicional. Aí um dia ele teve essa idéia e me chamou. A gente montou a banda com o Renato que tocava baixo no Newspeak, que tinha prometido pro irmão dele, que chamava Varuko, que ia fazer uma banda também, daí o Varuko também entrou.
No começo quem ia tocar guitarra era um amigo nosso que chamava Buia, só que ele não foi em nenhum ensaio. Mas quem sempre ia nos ensaios pra ver era o Tarcisio, que até hoje é guitarrista do Point of no Return também. Ele adorou a banda, achou muito foda e a gente chamou ele pra tocar. E ficou essa formação por um tempão. Com essa formação, tocamos nas Verduradas antigas da casinha algumas vezes, tocamos em Guarulhos e uns lugares que tinha pra tocar aqui em São Paulo na época, só que a gente não chegou a gravar nada. No começo a banda se chamava Reborn, porque não conseguimos pensar em um nome melhor e acabou ficando esse nome mesmo. Aí estávamos um tempão sem ensaiar...
Kalota - A gente era quase um projeto no começo , não era muito sério
Pedro - É, não era muito á sério, 100%, no começo. Era mais um projeto de membros do Point e do Newspeak, digamos.
E um belo dia, a gente tinha ficado uma cara sem ensaiar, pra variar, isso já era lá por 99, acho que no festival de janeiro de 99. Nós resolvemos, "meu, vamos voltar com a banda mais a sério, mas vamos mudar de nome, vamos gravar e fazer um bagulho direito" "Beleza, vamos aí".
Então pensamos num nome que tivesse a ver com aquele filme "Warriors", que a gente gostava e sempre assistia, e acabamos chegando nesse nome I Shot Cyrus. Só que nesse tempo que a banda ficou parada, o Renato que era baterista estava se envolvendo muito com a faculdade dele e resolveu sair, então chamamos o Pierre pra tocar, que é guitarra do Constrito e na época também era baterista do Insanus, que também tem na "Thrash Master". Chamamos ele pra tocar batera com a gente, ele aceitou e então falamos para o Renato só gravar com a gente pra coletânea "Thrash Master" que os moleques tinham convidado a gente pra participar. Depois ele podia sair, depois ela já estava dispensado. Aí o Renato gravou algumas musicas do nosso repertório original. Depois disso o Pierre foi pegando as musicas e então a banda realmente ficou séria, a partir daí, a partir dessa época do Pierre.
Depois disso o Point of no Return foi pra Europa e o Newspeak acabou. Ai depois o Point deu um tempo, então começamos a pegar o Cyrus como nossa banda principal. A banda começou a evoluir, começamos a fazer mais shows, a compor bastante e tudo mais. Depois em 2001, gravamos aquela coletânea da Laja records do Espírito Santo a "Drunk Fools Vs True Till Death". A formação já era outra, o Tarcisio tinha e o Varuko tinham saído, no lugar deles entrou o Choker, que está passando aí e entrou a Tatiana também, que está até hoje.
Continuamos com essa formação, gravamos, começamos a fazer umas musicas e depois a banda ficou meio assim, meio instável, o Pierre acabou saindo também. Aí por acaso um belo dia, eu estava meio sem saber o que fazer, o Point tinha ido pra europa pela segunda vez e eu fui com eles de novo. E nós voltamos já sem baterista, estava o maior caos, maior situação horrível.
Kalota - Caos geral.
Pedro - Então eu estava aqui na verdurada e o Boka chegou e falou pra mim "porra meu, tá foda, eu não tô tocando bateria, o Ratos esta parado", porque o João Gordo tinha feito aquela operação de redução de estômago… ele chegou e falou pra mim "pra você ter uma idéia a única coisa que eu tô tocando é uns covers do Sepultura com um camarada meu que tem um estúdio perto da minha casa"… na época a gente estava na seca pra tocar e o Boka foi um dilúvio. A gente nem imaginava, o Boka apareceu como uma dádiva, que nem a chuva na seca do nordeste, aí eu falei "não seja por isso toca com a gente" ele falou "pô pode crer, eu te ligo essa semana". ele ligou na mesma semana. Meu pensamento principal foi "agora a gente vai poder finalmente fazer vários tipos de musica", porque a gente sempre fica meio limitado ao estilo dos bateras, a gente teve uns bateras bons, mas cada um tinha sua característica... nosso ex - guitarrista vai entrar na entrevista.
Choker - Ele falou uma frase quando o Pedro comunicou quem era o baterista: "Caramba, é o melhor do mundo", foi isso que comentamos, que a gente ia fazer o que quisesse agora musicalmente. Então a banda ampliou seus horizontes musicais, vamos falar assim.
Boka - Foi mais ou menos o que o Pedro falou, eu estava sem tocar e sempre gostei do Cyrus, dos shows que eu vi, das musicas que tinha na "Thrash Master"... E eu comentei com ele e ele comentou também "porra o Cyrus esta sem batera", se é uma banda de hardcore rápido é legal, vou ver se da pra conciliar tudo, não tinha previsão de voltar a tocar com Ratos de Porão num espaço de uns dez meses, um ano, assim... e aí a gente começou a tocar direto, fizemos um cronograma, vamos ensaiar tanto tempo, fazer o maximo de shows que a gente conseguir, gravar um disco e fazer uma turnê lá na gringa. E conseguimos fazer esse cronograma até meio que profissionalmente, a gravação ficou boa pra caralho, compusemos 70% do disco todos juntos..
Pedro - Fizemos assim, ele entrou e falou "como é que vai ser?" e eu falei "é o seguinte, a gente esta buscando uma espécie de utopia, queremos gravar nosso primeiro cd e fazer uma turnê", aí eu falei pra ele...
Choker - Há dois anos falando isso.
Pedro - É, já fazia dois anos que estávamos falando isso, desde que ele (Choker) tinha entrado na banda que estávamos com essa idéia. Aí eu falei assim "vamos fazer isso então, nosso programa é gravar o disco, fazer a turnê e depois a gente vê como fazemos", eu nem sabia se ele ia continuar na banda depois e como é que ia ser.
Então fizemos isso, gravamos o disco, foi o maior sufoco, não sabíamos se o disco ia sair a tempo da turnê, fizemos camiseta, foi a maior correria, conseguimos marcar a turnê inteira nós mesmos Foi foda que o cara daquela banda Newborn que tem um split com o Catharsis, falou que iria fazer toda nossa turnê, aí todo dia eu escrevia para ele "e ai, marcou algum show?" ele "porra meu, não deu, amanhã eu marco" e não marcava nunca… e enquanto isso a gente ia marcando sozinho. Aí chegou no final, eu já tinha marcado a turnê inteira, eu, o Kalota e o Boka e ele não tinha marcado show nenhum.
Tatiana - Eu entrei na banda porque o Varuko saiu, ele era o baixista original, ele desencanou de hardcore e eu gostava da banda já há bastante tempo, fui no primeiro ensaio e tudo mais.
Aí o Pedro me chamou pra substituir o Varuko, só de quebra galho, porque eu já tinha mais quatro bandas, eu tinha o Infect, No Violence, o Settimana Rossa que era uma banda nossa de punkrock e o Vingança que era uma brincadeirinha nossa. Aí eu entrei e acabei ficando, sei lá, foi assim.

2-Como vocês já estiveram na europa, queria saber a opinião de vocês sobre o porque que toda banda que vai pra lá volta maravilhado

Pedro - Na verdade eu não sei se isso é assim, acho que a gente não voltou maravilhado de lá, voltamos bastante felizes, contentes com o resultado da turnê para nós, entende? Porque a turnê foi bem satisfatória, tocamos em um monte de lugar, tocamos com umas bandas legais, com gente legal e enfim foi bem bacana pra gente.
Mas a gente não voltou maravilhado com a cena de lá porque..., primeiro que eu e o Kalota já tínhamos ido com o Point duas vezes, segundo que o Boka já foi com Ratos de Porão mais de dez vezes, desde de 91 que ele tá indo pra lá. E a Tatiana acho que ela não ficou maravilhada também porque ela não fica maravilhada com nada, tá ligado. Então pra nós três não foi nenhuma surpresa, pra ela acho que não também e sei lá, lá não é melhor do que aqui, a única coisa que é melhor lá e que tem estrutura melhor pra fazer show e da pra você fazer a turnê inteira e voltar toda a grana, vender uns bagulhos, os moleques dão comida boa e te dão lugar pra você dormir. Só que assim, em termos do hardcore de lá, o espírito mesmo da coisa, não é melhor nem fudendo.
Boka - É diferente pelo seguinte, se uma banda for pra europa ou passar por outro país agora, do jeito que é o Brasil agora é uma coisa, em 91,92 ou nos anos oitenta era completamente diferente, eles estavam a muitos passos na frente. Agora que nem hoje aqui, de 95 pra cá a gente já viu várias bandas, várias vieram e fizeram turnê de dez, quinze shows, hoje aqui tem vários selos, as bandas são melhores, tem equipamento melhor, então hoje a gente não esta tão atrás do que eles estão. E o lance da grana é simplesmente um fator de situação econômica de cada país, na europa a classe menos privilegiada economicamente é praticamente classe média aqui no Brasil. Acho que no começo dos anos 90 era diferente da fase que eu peguei e também são circuitos diferentes, o circuito que o Cyrus fez foi é tipo uma parte meio punk, outra parte mais straight edge, na europa a cena é bastante dividida, então são circuitos diferentes, cada banda faz um circuito e vai vim com a impressão diferente Mas moral da história, o Brasil hoje é muito mais evoluído do era ha dez, oito anos atrás.

É muito diferente de quando você vai com o Ratos

Boka - Cada ano que eu vou com Ratos é diferente, com Cyrus também foi diferente, mas é um diferente igual, entendeu (risos).
Pedro - O Point era diferente pelo seguinte, como ele falou tem vários circuitos, o Point tocou muito mais shows straight edge do que o Cyrus. O Cyrus tocou bastante na cena straight edge, mas também tocou mais shows de crust, de hardcore oitenta, enfim em tudo quanto era tipo de show. E o Point tem um publico próprio. Na segunda vez que o Point foi, já era meio que uma banda grande, com público próprio. E a gente não, nós éramos uma banda nova, desconhecida para os caras, então tocamos todo tipo de show tentando arrumar um publico lá que a gente ainda não tinha, essa era a diferença.

3-E quanto ao movimento straight edge, qual é o envolvimento de vocês com a filosofia

Pedro - Eu sou straight edge desde 95, faz nove anos e pra mim foi muito importante na minha adolescência, porque foi uma maneira de eu confrontar uma pá de coisas que eu não gostava, uns amigos meus ficavam diferentes quando começavam a beber e fumar, umas paradas que eu não achava legal. Eu estudava numa escola que era cheia de uns hippies maconheiros, e eles eram meio que o status quo da escola, eram os populares e eu achava os caras o maior lixo, odiava.
Sempre achei que era importante você ter controle sobre si mesmo e e sempre achei straight edge uma coisa legal. Então um belo dia eu falei "ah meu, quer saber, eu vou ser essa porra mesmo e pau no cú…". Então foi bem importante pra mim no começo. Eu era pivete, raspava a cabeça e ia pra escola de X na mão, moletom de capuz e me sentia o maior… "ah eu sou straight edge!!!". Depois você meio que desencana, hoje em dia é um negocio que eu nem penso muito assim, é um bagulho que eu sou, que eu não me envergonho e acho legal até hoje da mesma forma, só que ... hoje eu fiz X não mão mas já fazia uns dois anos que eu não fazia, fiz hoje de brincadeira. Hoje em dia é uma coisa que nem penso muito, não é uma coisa que eu preciso exaltar, é uma coisa que faz parte de mim e da maneira que eu sou. E acho que no Brasil a cena straight edge teve uma grande importância na evolução do hardcore em geral, mas hoje em dia isso já nem é tão importante nem pra mim nem como cena, mais. A cena hoje é mais centrada no hardcore e na política e nem tanto no straight edge.
Boka - Eu no caso nunca fui straight edge e não sou, mas acho que como ele falou, tem uma importância no contexto todo, porque é uma galera que se identifica com isso e tem um pessoal que organiza os shows, bandas que se reivindicam straightedge... Mas pra mim é uma coisa irrelevante se a pessoa é straight edge ou não, não vou valorizar mais ou menos por ter feito essa opção, por achar isso legal ou não.
Eu tenho amigos que não gostam de straight edge, straight edge que gostam só de straight edge… pra mim é uma coisa irrelevante, ser ou não ser é a ultima coisa pra mim. Eu não vou conhecer uma pessoa agora e perguntar pra ela se ela é straight edge ou não, nem agora nem nunca, se eu souber que é, beleza, legal, se identifica, acho que é importante, mas pra mim é irrelevante. Mas eu reconheço que é uma força expressiva dentro do hardcore, uma subcultura legal, que é meio independente, não que se divide mas que se define dentro de um contexto todo.

Eu li numa revista que você tinha se assumido straight edge, isso não é verdade

Boka - Isso ai foi um pessoal que começou..., por eu tocar numa banda conhecida, pelo fato de eu ter "careteado", muita gente especulou sobre e falou "ah, o Boka virou straight edge". Tem gente que não me conhece e gente que me conhece que fala isso pra mim. Mas olha, eu tenho trinta e três anos, filha pra criar tá ligado, toco hardcore desde os quinze, não tem nem como... Mesmo que eu até pensasse isso, não tem cabimento, porque eu não tenho essa filosofia de que quero ser sempre careta. E o vegetarianismo pra mim é uma coisa clara, que tem haver com tudo que eu penso, é como linha de pensamento coerente, um estilo de vida. Agora, ser careta, eu não coloquei um bagulho na minha cabeça e falei "nunca mais vou fumar e nunca mais vou beber", por enquanto eu não estou afim, não estava gostando da vida que estava levando e parei, mas eu nunca falei que nunca mais vou beber, não vou fumar, não vou cheirar e se um dia der vontade eu vou fazer.
Tatiana - Eu sou straight edge desde dos quinze anos e tenho vinte e três. Eu virei straight edge assim, eu já gostava de punk e era meio drogada, era bem nova e usava um monte de coisa, fumava, bebia... E uma vez eu misturei várias coisas e quase entrei em coma alcoólico, foi mal mesmo. E eu cheguei à conclusão de que isso não era legal pra mim, principalmente por eu ser mulher, eu acho importante fazer essa relação entre straight edge e as minas, porque se você bebe, se você se droga e fica jogada por aí, você não sabe o que pode acontecer com você e você vira uma presa muito mais suscetível. Só por você ser mulher você anda na rua e já ouve um monte de grosseria, tentam passar a mão na sua bunda, é um inferno, quem é mulher sabe. E se você esta bêbada, drogada, fora de si, você fica muito mais suscetível a esse tipo de coisa. E eu virei straight edge por causa disso. Quando eu era mais nova, fazia como o Pedro, fazia X na mão e ia pra escola, era tretada com todos os hippies maconheiros, na época era importante pra mim, mas hoje em dia acho meio ridículo. E eu não estou nem ai, tenho amigos que usam droga e que não usam, sei lá, lá na faculdade todo mundo fuma maconha e se eu não for falar com as pessoas por causa disso vou estar sendo uma trouxa. E eu falo com todo mundo, maconheiros, não maconheiros, drogados e não drogados... E pra mim ser straight edge é uma coisa igual a respirar, é tão normal que nem lembro que sou e acho que sou bem melhor assim de quando tinha quinze anos de idade, sou muito mais straight edge agora do era naquela época.
Pedro - Eu só lembro que sou straight edge por que tem uns caras que me lembram… "ah o cara é straight edge" ou senão chega uns caras e falam umas bostas tipo "straight edge bate em bêbado", "straight edge não é punk", ai eu ligo. Senão nem ligo muito para isso.
Boka - Uma coisa é a particularidade que eu notei, é um bagulho assim, o pessoal no geral reivindica uma contracultura, uma subcultura que pensa assim "a gente aceita a liberdade, a gente prefere a liberdade, cada um tem o direito de ser o que é", só que a maioria está preparada para te rotular a qualquer momento, a partir do momento que você chega e fala "eu tô careta", a maioria dos meus amigos falaram assim "pô você virou straight edge e vai ir pra igreja", então é uma coisa contraditória, você esta privando a liberdade de todo mundo, tem que aceitar todo mundo do jeito que é, um mundo livre, uma opção de liberdade, mas está preparado para apontar o dedo na cara de alguém e rotular, "ele punk, ele crust, ele é metaleiro"...Então isso pra mim é uma coisa totalmente irrelevante como eu te falei, eu acho que a gente tem que se relacionar com todos os tipos de pessoas.
Tatiana - O que eu acho uma merda é quando as pessoas vêem que você é straight edge e acham que você não come tal comida, que você usa tal roupa, que você ouve tais bandas, mas não é bem assim, não é só porque eu sou straight edge, que eu tenho que comprar o modelo de straight edge que as pessoas têm na cabeça.

E o straight edge na banda?

Pedro - O straight edge na banda não é uma questão muito importante... no começo quando chamava Reborn, no comecinho, na primeira fase, a banda era, só mesmo nessa época. O primeiro batera quando ele ainda estava na banda, deixou de ser straight edge. Então a gente decidiu que não era mais uma banda straight edge, era uma banda de hardcore e só, e vai tomar no cú. Desde então a gente nunca mais pensou nisso como uma questão. Teve formações depois em que todo mundo era sXe, em que todo mundo era vegan até, mas a gente não botou isso como rótulo.

4-Responde ou passa: Hardcore é? a) Um estilo musical b) Agressividade, não conformidade e velocidade extrema. c) Musica para ser feliz d) Melhor forma para se expressar e) Amor f) Todas as anteriores g) Todas estão incorretas
Pedro - Acho que o hardcore é uma família de vários estilos musicais. No começo, o hardcore era um punk rápido, hoje em dia vários estilos fazem parte desse modo de fazer as coisas, tem umas bandas que tocam metal, mas têm um espírito hardcore, tem umas bandas que fazem punk rock mas também fazem isso de uma maneira hardcore. E também tem o hardcore tradicional.
Agressividade, não conformidade e velocidade extrema é hardcore, apesar de eu achar que tem banda que é lenta e é hardcore também, não precisa ter velocidade extrema.
Musica para ser feliz não é nem fodendo, muito pelo contrario, é musica pra você ficar com raiva do mundo, mas ao mesmo tempo ver tudo que tem de ruim e ter uma perspectiva positiva em relação a isso, de mudança. Mas não é musica pra você esquecer da realidade e ficar relaxado. Nem fodendo, é o contrário disso.
A melhor forma para se expressar… não é a melhor forma, é apenas uma forma.
Amor não é nem fodendo, sei lá, tem amor pelo hardcore. Mas é mais ódio do que amor e ódio pode ser positivo também. E amor pode ser uma bosta.
E todas as anteriores não e todas estão incorretas também não.
Boka - Estilo musical... no começo dos anos oitenta o hardcore era um estilo de musica, mas hardcore hoje é muita coisa, fora até da nossa própria comunidade, hardcore são varias coisas.
Agressividade, não conformidade e velocidade extrema, em partes.
Musica para ser feliz, acho que a musica pelo menos pra mim de motivação, a motivação não é necessariamente acessório para felicidade, se você esta motivado para fazer uma coisa não quer dizer que você esta feliz. O hardcore é uma musica que me motiva pra vida e pra tudo que eu faço.
A melhor forma de se expressar não é, lógico que não porque a maioria dos vocais ninguém entende nada, mas como uma subcultura, como mensagem da pra você transmitir muita coisa pessoa muitas pessoas através de uma banda de hardcore.
Amor depende, eu sinto amor pelo hardcore, mas sei lá nem expresso esse lado. Todas as anteriores não e todas estão incorretas também não.
Tatiana - Assim não vale, eu sou sempre a ultima, vai parecer que estou copiando eles, eu concordo com que eles falaram, eu não vou ficar repetindo que eu vou estar ocupando lugar no seu zine. A melhor forma de se expressar, não sei se é a melhor mas é a forma que eu encontrei de me expressar e é a forma que eu melhor estou me expressando no momento.

5-Quais são as bandas da atualidade vocês acham que representam o verdadeiro sentido pra você, da palavra hardcore no Brasil

Pedro - Acho que o Brasil talvez tenha muito mais bandas que representam o verdadeiro sentido do hardcore, do que bandas que eu goste musicalmente. Então eu não sei, tem tantas bandas, acho que todas as bandas que tocam nesse circuito mais faça você mesmo, mais politizado, acho que todas essas bandas representam o hardcore de alguma forma.
Uma banda que eu acho bem legal e que representa bem o que eu entendo por espírito hardcore é o Morte Asceta de Curitiba, eles tem umas letras provocativas ao mesmo tempo bem irônicas e bem políticas, de uma forma original deles, o visual das coisas que eles fazem é bem interessante também. Enfim eles tem toda essa coisa de criatividade, humor e revolta, acho que é o verdadeiro espírito hardcore, acho que o Morte Asceta é umas das bandas que mais representam isso no hardcore brasileiro ultimamente.
Mas tem outras bandas que representam de outras formas, por exemplo Odyssey é uma banda de Curitiba também que eu gosto bastante e que representa outras faces do hardcore, essa energia jovem, essa coisa de empolgação, esse pique, esse espírito.
O Point of no Return também representa bem pela política, pela postura firme… enfim tem mais banda que representa, cada um de uma maneira, o Discarga mesmo, pelo som, por se manter fiel as raízes do hardcore só que com uma cara própria.
Boka - Não me sinto muito a vontade para responder essa pergunta porque é uma coisa muito individual, cada um tem uma ótica para saber o que é hardcore ou não, posso até ter entendido mal, mas se eu estivesse lendo essa entrevista iria falar "pô essa banda é hardcore porque ela segue isso ou aquilo". Mas pra mim não me sinto à vontade de falar "essa banda representa o hardcore fielmente do jeito que tem que ser", nada contra mas não me sinto a vontade para responder.
Tatiana - Eu não sei dizer também, mas tem umas bandas que eu gosto e que eu não gosto, mas isso não quer dizer que as bandas que eu gosto representam o hardcore e as que eu não gosto não representa, sei lá, eu gosto do Discarga, do Discarga, do Discarga... eu gosto assim de musica rápida e simples.
Boka - Eu tenho uma colocação que é o seguinte: uma banda pra mim que representa o hardcore hoje, a gente pode até considerar a musica, a mensagem e tudo, se chama Sein Red. Por quê? Porque todos eles têm mais de quarenta anos e passaram por várias gerações do punk e continuam subindo no palco e fazendo aqueles vinte minutos, que é importante e que motivam os caras a continuar na vida.
Então, por exemplo, eu tenho trinta e três anos, já passei por varias fases do hardcore e me espelho nos caras, eu quero estar com quarenta anos tocando, fazendo shows, vendo bandas, lançando discos e indo atrás das coisas. Então acho que isso é uma coisa dentro da comunidade que me motiva, ver pessoas mais velhas que têm seus compromissos na vida, que já trabalham, já tem até família, mas não separaram, tipo "ah isso era coisa de moleque, agora não quer dizer nada pra mim".

6-Vocês acham que a filosofia straightedge é ligada ao movimento punk? Qual a opinião de vocês sobre o movimento punk

Tatiana - Pra mim não tem nada de à parte não, pra mim straightedge é punk e se não for punk não é nada. Sei lá, é o jeito punk de produzir, não de usar arrebite, moicano, essa coisa estereotipada do punk, mas de você fazer as coisas você mesmo. E straightedge esta incluído ai nesse meio.
Pedro - Pra mim também, é bem por ai, acho que...sei lá, vendo dessa maneira o straightedge com certeza faz parte do punk, acho que é até uma extensão, digamos assim, ser punk é ter o total controle do que você produz, do que você faz, sem ter o capital, ou uma outra pessoa no seu cangote te obrigando a fazer isso e aquilo, sem seguir uma tendência definida pelos outros, sem ter que fazer nada, só o que você quer mesmo. E acho que straightedge é uma adaptação disso pra sua conduta pessoal na vida.
E acho também que as pessoas que se identificam com o straightedge, acham que é importante ter total controle sobre você mesmo, não se deixar dominar por um vicio, não ter que sair do seu normal pra se divertir. Mas assim, varias pessoas têm total controle da sua vida usando drogas, eu respeito totalmente, só que pra mim, acho que faz parte de ter total controle sobre mim mesmo, não usar. É por isso que o straightedge é uma adaptação da filosofia punk para o individuo.
Boka - Eu vou responder assim curto e grosso, a primeira vez que eu ouvi falar de straightedge, deve ter sido em 88,87, eram bandas de punk hardcore de uns caras caretas, então é lógico que tem haver porque foram eles que criaram.
Pedro - Na real existe uma parte do straightedge, principalmente na gringa, que tem muito pouco a ver com esse espírito original do punk desse lance do "faça você mesmo". Enfim, digamos que é um metal alternativo em que os caras não usam drogas. Eu não me identifico absolutamente em nada com isso, com essa forma de straightedge. Tem uma banda de metal, os caras são de gravadora grande, não sei o que de new metal... e de repente o cara fala "ah, sou straightedge", eu não vou me sentir nem um pouco mais próximo do cara só por causa disso, sendo que o resto todo é o contrário do que eu sou. Para mim não tem nada a ver.

7-Conheci o I Shot Cyrus através da coletânea "Thrashmaster". O que mudou pra banda sair em uma coletânea com tantas bandas selecionadas como Newspeak, Test Ban Treaty, Infect, Insanus e Discarga. As coletânea que vocês participaram trouxeram resultados positivos

Pedro - Na é época, a Thrashmaster foi muito pouco divulgada, ela foi uma coletânea muito mal distribuída. Logo que a coletânea saiu, um dos caras que lançou ela, que era o vocalista do Newspeak, meio que desencanou de hardcore, se encheu um pouco o saco e parou de fazer as correrias da coletânea, acho que por causa disso. Pouco tempo depois o parceiro desse cara acabou também se distanciando e começou a fazer outras coisas, então a coletânea ficou meio jogada e foi bem mal distribuída.
Hoje em dia é que eu estou vendo alguns resultados dessa coletânea… quatro anos depois está chegando gente pra me falar, "ah, a Thrashmaster me influênciou", "a Thrashmaster é uma coletânea legal", agora que as pessoas vêm falar da Thrashmaster pra mim… é engraçado.
Mas eu o que eu acho que foi interessante nessa coletânea, é que ela é meio que um símbolo de uma nova fase do hardcore que estava começando aqui, porque ela juntou o Cyrus, Discarga e Infect que são três bandas que sempre andaram juntas até hoje. O Infect acabou agora pouco, mas as 3 bandas sempre andaram juntas e foram meio que pioneiras nessa onda de bandas mais rápidas que rolou depois disso. Não sei se fomos os primeiros ou influenciamos as bandas que começaram depois disso. Não estou falando isso, não quero pareça presunçoso. Mas digamos que a coletânea foi uma nova fase, eu vejo isso dessa forma. Eram três bandas que estavam começando ali, que fizeram muitas coisas juntas e que eu vejo muita molecada gostando hoje em dia. Então acho que a Thrashmaster foi o marco inicial dessa onda thrashcore por aqui, mesmo que a influência tenha sido indireta.

8-E para você com Infect como foi

Tatiana - Eu não sei, eu vendi poucas cópias, não vendi pra ninguém e a distribuição não rolou tão legal assim e acabou que a coletânea é mais conhecida lá fora do que aqui dentro se bobear. As pessoas valorizam mais lá fora do que aqui. Foi legal pro Infect porque foi a primeira gravação que a gente teve assim séria... e foi bacana.
Pedro - É engaçado ver ela nas listas de troca de vinil… a gente recebe cartas de gente querendo trocar lá fora, chega gente falando da coletânea, virou um disco meio raro lá. É engraçado porque aqui foi uma coletânea que passou em brancas nuvens, uma coletânea que lançou e foda-se.
Tatiana - Aqui as pessoas não curtem muito vinil igual lá fora. Levamos vinil pra vender lá na gringa e vendeu tudo, enquanto não vendemos todos os discos, quase não vendi cds, vendi três cds e cem lps. As pessoas dão muito mais valor pra vinil do que aqui, talvez seja por isso que a coletânea não tenha dado tão certo aqui, aqui as pessoas não têm vitrola, essas coisas.

9-Quais são os planos para 2004

Pedro - Estamos fazendo musicas para lançar um split Ep com o Kriegstanz da Holanda, que é uma banda bem legal com membros do Cathode e Sein Red. E a gente estava pensando em tentar fazer uma turnê no EUA, só que nem sei se vai rolar, porque estamos sem grana e está meio embaçado para arrumar visto, enfim... Mas foi uma coisa que chegamos a pensar. E estamos afim de gravar uma split Lp com Discarga. E também tocar no resto do Brasil, a gente foi na Europa e tocamos pouco no Brasil, na verdade tocamos até hoje no Paraná, São Paulo e Minas Gerais, eu sinto muito falta de tocar em outros lugares, como Espírito Santo, Nordeste e Rio Grande do Sul.

10-Qual a opinião de vocês sobre zines impressos e e-zines

Tatiana -Eu não conheço muitos e-zines, não sei, não tenho nem internet na minha casa porque está com problema. Eu particularmente prefiro zine impresso porque eu gosto de pegar nas coisas que estou lendo, mesmo quando acho coisas na internet procuro imprimir porque tenho dificuldade de ler coisas no computador. Mas por outro lado o e-zine é mais acessível para as pessoas que têm internet porque não precisa gastar com selo para mandar para outras cidades, outros estados...então é uma vantagem, mas eu prefiro zine impresso.
Pedro - Eu acho os dois bem legais, as únicas coisas que eu acho é que os zines impressos deram uma sumida e a coisa ficou muito concentrada na internet e isso é muito ruim porque muita gente não tem internet. É legal que vai rápido e tudo mais. Mas eu acho que o zine impresso era uma coisa que antigamente o pessoal dava um maior valor, você lançava e o pessoal comprava, falavam: "saiu um zine novo… você comprou o zine novo de fulano? ", você pegava os zines, colecionava e guardava. Agora o zine de internet ninguém comenta, ninguém fala nada, você põe uma entrevista lá e não sabe quem que leu e quem que não leu. Eu não sei se as pessoas prestam tanta atenção, mas muito mais gente lê os zines de internet, que também não têm custo e não precisa pagar. Acho que é melhor fazer os dois.
Tatiana - O legal de fazer um zine impresso é que você pode fazer colagens, coisas que na minha opinião..., sei lá são muito legais, eu não trocaria por nada.

11-Deixe uma mensagem pra galera que vai ler entrevista.
Pedro - As pessoas que tiverem uma banda, pensem na banda como uma coisa que realmente pode ir frente e dar certo. Não façam as coisas nas coxas, sem ambição, sem projeto, tem que fazer correria, batalhar... ah é isso, qualquer coisa escrever pra gente, qualquer duvida qualquer pergunta, comentário e para as pessoas tentarem pegar nosso discos, não porque eu quero vender, mas pra eu saber o que as pessoas estão achando.
Tatiana - Ah essa parte e chata... um beijo pra todos

www.ishotcyrus.hpg.ig.com.br

 
+ Parceiros