RATOS DE PORÃO

Não tem como alguem contar a histrória do movimento punk no Brasil sem citar o Ratos.
Com vocês a entrevista feita com Jão o unico integrante original desde o inicio do Ratos de Porão numa entrevista descontraida no camarim do show em Sorocaba.

Por: Nelson Jr. e Geise Paula

Gostaria que você fizesse um pequeno resumo da trajetória do Ratos de Porão desde o SUB até os dias de hoje.
Jão - Puta, um pequeno resumo é foda né bicho... Há cara não da pra resumir 22 anos em meia dúzia de palavras, na verdade estaria incompleto. Acho que queremos falar mais do presente mesmo, a banda ficou parada um tempo e agora esse ano voltamos na ativa. Ficamos parado por um ano. Nós queremos tocar por aí, fazer o lançamento do "Onisciente coletivo", que não fizemos quando lançamos. Agora a história da banda você entra no site e pega lá. (risos)

De 82 pra cá, tirando o profissionalismo, por que a banda agora é bem mais profissional, o que mudou para banda?
Jão - Não só para banda, a gente já não é os moleques que tinha dezoito anos, quinze anos, dezesseis anos em 82, os caras já estão quarentão ou beirando os quarenta. Então é lógico que muita coisa mudou, eu sou casado, o cara vai ser pai..., então que dizer, a vida da gente esta indo. Agora a banda cara, a gente sempre se levou pela vontade de tocar, pelo fato de gostar daquilo que faz, porque se não fosse por esses motivos já tínhamos acabado faz tempo, porque é meio inviável você de repente manter uma banda por vinte e tantos anos assim, que não é uma banda que cobre despesa, que cada um faz alguma coisa paralela.

E na cena você sente falta de alguma coisa, o que você acha que é pior ou melhor?
Jão - Eu acho que melhorou bem, você ter espaço pra tocar em várias cidades é sempre bom né cara, coisa que antigamente era muito mais limitado, até o fato da própria produção de um show era muito mais difícil, pra você conseguir um PA razoável, um amplificador, bateria... Então hoje em dia as facilidades é lógico que são maiores e conseqüentemente a cena tende a se expandir né cara, então isso é legal. E eu não sou um cara muito saudosista não, é lógico que era outra cena de quando eu era adolescente, da que é hoje, mas... legal.

O Ratos já fez várias linhas de som, hardcore, grind, crossover, você acha que o som sempre vai mudar ou qual é o caminho para o Ratos de Porão?
Jão - Eu acho que assim, o básico do Ratos de Porão sempre foi o hardcore metal do "Descanse em paz" pra frente, então a gente ia lapidando conforme a vontade de fazer determinado som, mas sem muito se preocupar com isso, mais compondo as musicas e fazendo, é lógico que você sempre com os anos vai mantendo umas tendências. Mas o Ratos de Porão nunca foi uma banda de punkrock, porque já começou fazendo hardcore. Grind tem momentos no meio do som de alguma ou outra musica, mas também não é uma banda grind, então acho que o básico mesmo é o crossover, metal hardcore. E é essa que eu acho que é a tendência independente do que a gente venha estar fazendo, alguma coisa que possamos estar ouvindo e pondo junto no estilo da banda, acho que tem umas coisas meio fixas.

O Ratos participou da história da cena punk brasileira. E depois de tudo que vocês passaram, de todas as correrias e todas as pedradas que tomaram na vida. Como é pra vocês serem considerados por algumas pessoas como traidores?
Jão - Há cara, eu não sei, eu não me julgo traidor de nada na verdade, até porque eu nunca assinei nenhuma proposta de lealdade eterna com ninguém, tá ligado, eu sou minha pessoa, é lógico que tenho meus ideais, e porra, se quando eu era moleque e tinha quinze anos já não andava com puta moicano na cabeça, não vai ser agora tiozinho de quase quarenta que eu vou fazer isso né meu. Eu acho que o que eu tenho dentro da cabeça é muito mais importante tiver em cima. E eu na verdade cara, é lógico que não vou me importar se o cara vai me chamar de traidor de um negócio que eu tô faz tempo e o cara está chegando hoje, eu não sei aonde ele vai estar daqui provavelmente quinze anos. Então eu tento relevar, fazer o que.

Com o sucesso do João Gordo na mtv, vocês acham que acabaram se tornando a banda do João Gordo e o que isso muda para o Ratos de Porão?
Jão - Bom, eu acho que é o seguinte, na grande mídia é lógico que o Ratos de Porão é a banda do João Gordo, isso é um negócio inevitável e não sou eu que vou ficar brigando contra, mas no nosso intimo sabemos que tentamos resolver as coisas de uma maneira mais possível pra todo mundo, tanto o lance de musica, capa, as direções que a banda vai tomar, nisso a gente tenta ser o mais democrático possível. E acho que a banda é de quem esta tocando agora, lógico que a banda é minha, é do Gordo, é do Boca... Eu acho que se fosse uma banda pop, a tendência da banda era seguir o rumo do vocalista e estar fazendo um negócio de mídia grande, mas nossa musica não é de mídia né meu, o Gordo tem um trabalho na mídia, ele é apresentador da mtv, fora isso o Ratos de Porão não cabe dentro desse contexto de grande mídia. E acho que a gente conseguiu manter uma coisa longe da outra e isso é bom e não importa. A gente já viu cartaz assim: "com João Gordo da mtv", a gente achou uma bosta, ele próprio acho uma bosta, tá ligado. Mas tem muito moleque se direciona única e exclusivamente pela mtv por exemplo, rola aquela alienação, o cara sabe o que vem dali só. Então o cara pode conhecer o gordo e não conhecer o Ratos de Porão e é uma coisa normal. E se é um moleque que não é do meio punk, hardcore, metal e é um moleque que assiste mtv, provavelmente ele vai conhecer o Gordo e depois vai saber que ele canta numa banda, muito mais depois se ele se interessar, vai saber que é uma banda muita mais antiga que a mtv.

Como foi a tour que você fez com a formação original do Ratos (Ratos da Periferia)?
Jão - Então cara a banda parou né, ano passado assim, então porra ficar sem tocar... Daí o Jaba e o Betinho que foram os caras que montaram o Ratos de Porão comigo, a gente mora perto, na mesma vila, então a gente sempre se vê, mas fica naquele negocio "E ai, beleza? " e passava, "então meu, vamos tocar aí, pegar aquelas musicas antigas do primeiro repertório do Ratos"... Aí a gente fez São Paulo, a grande São Paulo e interior. E é lógico que também rolou muita confusão pela desinformação, "o João gordo saiu do Ratos de Porão, Ratos de Porão agora voltou a ser..." e não era isso, o Ratos de Porão estava parado e a gente resolveu fazer aquilo ali até como uma forma de mostrar aquele repertório que o Ratos de Porão hoje em dia por exemplo nem toca. E sei lá, depois que passou esse lance e o Ratos de Porão voltou eu falei " bicho, não dá pra ficar Ratos de Porão, Ratos da Periferia, na verdade é muito rato pra pouco queijo". Então a gente montou outra banda , isso foi legal, "sei lá, vamos fazer umas musicas novas , uns punkrock pra diferenciar do Ratos de Porão", então eu, o Betinho e o Jaba falamos "vamos mudar também, vamos por Periferia SA, é o nome da banda e vamos fazer umas musicas novas". E a gente esta nesse pé, em breve a gente vai lançar um cd aí, com as musicas inéditas, pegar umas coisas antigas do Ratos de Porão que nunca saiu, dar uma roupagem e ser uma banda nova independente do Ratos de Porão, porque estava rolando uma confusão até pra fechar show, por exemplo o Renato que trabalha com a gente pra fechar shows, ia fechar um show e "é mas não é com o João Gordo?", o Ratos de Porão é com o João gordo desde 1983 né cara, essa que é a verdade.

Gostaria que você falasse quais são as suas outras funções fora da banda e quais são as outras bandas dos caras e até a sua agora.
Jão - Então, todo mundo tem seu projeto musical, o Boca toca no I Shot Cyrus, o Juninho, além do Discarga, tem o Inimigo, tem as bandas dele, lá , doidas. Fora isso eu também dou umas aulas numa ong., estou numa ong de São Paulo que se chama "Meninos do Morumbi", que trabalha com a molecada da favela da zona sul, mas também não é um negocio exclusivamente tipo gueto de favela, a gente tenta unir a criançada em prol de musica, então eu dou aula de guitarra lá. E o Gordo trabalha na mtv.

Qual a opinião de vocês sobre zines, e-zines ...?
Jão - Porra cara, isso aqui é maravilhoso, tanto internet, quanto zine impresso, eu acho bem legal, acho que é um bagulho difícil de manter, quando eu era moleque tentei fazer um, não deu certo e abandonei. Mas a gente sempre gosta de estar saindo em zine, porque é uma proposta diferente de qualquer tipo de grande mídia.

Fale um pouco sobre os projetos futuros da banda.
Jão - Nosso projeto futuro talvez seja gravar um compacto, um compacto de vinil, sete polegadas, duas musicas cada lado. Entre os projetos cara, a gente quer agora estar tocando ai, nesse começo de ano, estar fazendo musicas novas e ver o que vamos inventar pra lançar aí.

E europa?. Tem alguma coisa certa já pra proximas tours?
Jão - A Europa não sei, a gente esta tentando alguma coisa para o ano quem vem. Esse ano como ficamos a maior parte dele parado não deu para arrumar nada, agora ano que vem vamos esperar os acontecimentos e vamos tentar arrumar alguma coisa.

Deixe uma mensagem pra quem vai ler a entrevista, quem gosta da banda...
Jão - Um abraço pra rapaziada não só de Sorocaba, mas de toda região. É sempre legal estar tocando, um abraço para o pessoal que te acompanham aí no zine. E boa sorte!

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