Existe
saída para uma cena independente? E entrada?
Para
responder a essas perguntas é necessário um pequeno resgate
histórico, de modo a facilitar a compreensão de um processo
ainda em desenvolvimento, mas cujo momento inicial é indispensável
para seu pleno entendimento. Assim siga-me os bons...
Cerca 95/96: um espectro ronda o mercado fonográfico tupiniquim,
o espectro da "cena independente". Muitos shows, muitas boas
bandas e quase nenhuma organização. Amadorismo total, ainda
que perfeitamente compreensível, afinal tudo estava apenas começando
...Obviamente não tardou para que as grandes gravadoras abrissem
os olhos para esse "movimento ". Tinitus e Banguela (dois selos
pseudo-independentes, subsidiarias de majors) foram os principais expoentes
dessa "temporada de caça a bandas independentes". Diversas
bandas seduzidas e contratadas, muitos discos lançados e... fracasso
completo e absoluto como único resultado alcançado. Quantas
vezes não imaginei uma reunião de executivos de um desses
selos em que todos se olhavam perplexos e, quase em uníssono, perguntavam
: "Onde foi que nós erramos?". O que ocorreu foi um duplo
equivoco, para dizer o mínimo: eles botavam fé em que havia
algo emergente naqueles dias e em que as bandas escolhidas eram representativas
desse processo.
Well, a coisa não foi exatamente como imaginavam...Em primeiro
lugar o processo emergente era apenas isso, "emergente". Ou
talvez menos ainda, embrionário. e as bandas nas quais apostaram
estavam longe de ser as mais representativas daquele cenário pelo
simples fato de não saberem exatamente o que queriam - ser indie
ou ser mainsteram. Optaram pelo mainstream, mas optaram na hora errada.
Para citar alguns clássicos, podemos relembrar de Concreteness,
Little Quail, Party Up, Linguachula, Resist Control, todas essas igualmente
abduzidas por majors e em nenhum caso o resultado foi diferente de fracasso
e esquecimento.
Quem errou? Banda ou gravadora? Talvez nem um, nem outro. Ou talvez os
dois. Mas o fator principal esta alhures (***) e é justamente ele
que nos conecta com a pergunta título deste artigo.
Não havia naquele período um público-alvo bem definido.
A chamada "cena" se resumia a um "bando de bandas"
e gravadoras multinacionais querendo como sempre faturar com o hype musical,
nesse caso especifico um possível "movimento underground".
Eis o erro: não havia movimento algum.
Corte radical para 2002. Vou usar como referencial uma faca de dois gumes
para ilustrar adequadamente os dois extremos da situação.
No pólo mainstream, o CPM22 é prova de sucesso de publico
e de vendas. No lado under, os capixabas de Dead Fish com certeza não
se arrependem da sua opção do it yourself.
Mas como? Mas por que ? Porque há publico. Gostem ou não
do nome, uma "cena" dá provas de sua existência.
com todos os defeitos do mundo (tardia, carente de informação,
descerebrada, volúvel, etc...), mas ainda assim substancialmente
superior áquela suposta cena adotada por Banguelas e Tinitus da
vida...
Hoje pode-se falar tranqüilamente de cena independente com base justamente
no elo mais frágil que ela possui: publico/mercado consumidor.
Na galeria do Rock, em São Paulo, não são poucas
as lojas que vivem - quase que exclusivamente - da venda de CDs independentes
nacionais. Isso nunca poderia acontecer há, digamos, seis anos
atrás.
Isso meu caros, é um fato, e os fatos (até onde eu saiba)
não mentem. Portanto há cena! Porem ainda é muito
cedo para fazer prognósticos sobre longevidade, alcance, real capacidade...
Assim, creio que a pergunta sobre a possível saída para
a cena pode ser tranqüilamente substituída pela simples celebração
da sua existência. Para quem viveu o período negro do circuitoindependente,
os dias de hoje são puro deleite, ainda que coma consciência
convicta de que ainda há muito trabalho para ser feito, muitas
roubadas para serem enfrentadas e principalmente (eis na verdade o sentido
dessa porra toda) boa musica a ser criada, descoberta e disseminada. Que
assim seja.
Por
Marcelo Viegas - fonte zine Colateral n°3.
(Atualmente o Dead Fish assinou com uma grande gravadora)
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